20/01/20

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Eu, Belchior e seu canivete...

TÁ NA MÍDIA

26/02/2014
Eu, Belchior e seu canivete...

Eu, Belchior e seu canivete...

Todo mundo tem algum artista que gosta, admira e às vezes até sonha em ir ao seu show. Nunca curti muito o cantor Belchior, mas lá pelos idos dos anos 1990 ele era um dos artistas mais prestigiados aqui em Caxias do Sul. Ele e Oswaldo Montenegro não sei por que sempre foram sinônimo de casa lotada por essas bandas. Eles têm seu valor artístico, isso é indiscutível, mas conheci outros nomes muito mais importantes da nossa MPB que não despertavam a mesma admiração no complicado e nada criterioso público caxiense.

 

Com meus 20 anos aproximados, ou talvez nem isso, acredito que tenha sido em 1992, eu não poderia deixar de ir ao “badalado” show do cantor Belchior, aquele autor da inesquecível canção “Como Nossos Pais”, consagrada na voz de Elis Regina. Tão consagrada que ninguém mais tentou regravar, ou se regravou foi fadada à comparação, aí é fracasso na certa.

 

Belchior, aquele “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem amigos importantes e vindo do interior”. Fomos eu e um amigo de infância, que, além de músico, é hoje também jornalista. Além dele, meu colega de trabalho, que, assim como Belchior, era literalmente um “rapaz latino-americano”, ou melhor, no caso dele, boliviano. Para quem conhece a figura que me acompanhava naquela época, dispensa qualquer apresentação, visto que era, e ainda é, um grande debochado.

 

O canivete

 

Como qualquer jovem dos anos 1990, bebemos muita cerveja durante o show. Tanto é que o show sempre se tornava algo secundário. O principal mesmo era o agito. Coisa típica da juventude. Lembro-me que o show empolgava, mas o melhor de tudo estava por vir. Ao terminar o show, os próprios músicos recolhiam seus instrumentos. Notei aí uma oportunidade de subir ao palco e ir até o camarim, coisa impensada antes, visto que já escrevi que não curtia, e até hoje não curto muito o Belchior. Acho sua complexa personalidade muito mais interessante que sua obra musical.

 

Lembro que um saxofonista fazia parte de sua banda. E uma moça falava com ele e conseguiu assim acesso aos camarins. Não deu outra: estiquei o braço e ele me puxou para cima do palco. Atrás de mim veio meu amigo músico e também o amigo latino-americano, ou seja, o boliviano.

 

Ao entrar no camarim encontramos alguns fãs, a banda, a produção e um Belchior sentado em uma mesa cortando com um canivete multiuso (acredito ser suíço) aquilo que para mim parecia um rolo de fumo. Sim fumo mesmo, aquele que os velhos italianos costumavam cortar para fazer os seus “paieiro”.

 

Autógrafo vem, autógrafo vai e aquele papo “pentelho” de fã de primeira hora. Eu e todos ali presentes ganhamos nosso autógrafo. Era a glória para um jovem que foi apenas ver o show de um cantor que eu acreditava ser mediano. Em uma época que nem sonhávamos com máquinas fotográficas digitais, um autógrafo era “mais que tudo”.

 

Enchemos tanto o saco do “tal” Belchior que chegou a hora que a produção disse: Agora chega! Tchau!

 

Saímos dali rindo à toa. Também com tanta cerveja, um show legal e agora nos sentíamos íntimos do Belchior, pois até um autógrafo ele tinha nos dado, além, é claro, de nos recepcionar em seu camarim. O autógrafo nem lembro onde foi parar, só sei que era sobre um papel que embrulhava o cigarro da marca Carlton.

 

Ah, sim? Moral da história. Meu amigo o boliviano não parava de rir. Eu pensei, algo de errado aconteceu. Ele sem titubear e como um troféu mostrou o “souvenir” que ele tinha “surrupiado” do Belchior: O canivete multiuso o qual ele cortava seu fumo de rolo.

 

Coisas da juventude.

 

P.S. Comentam que hoje Belchior se encontra perambulando por aí à procura de seu canivete furtado. Ah! A prova do crime? Perdemos em um acampamento ainda naquele ano em uma localidade do interior de Caxias do Sul chamada Criúva. Sou cúmplice desse furto, mas o crime já deve ter prescrito.

Desaparecimento de Belchior (Fantástico 23/08/2009)

 

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