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60 anos de amor a Deus e doação ao próximo na vocação sacerdotal

Natural de Feliz, o jubilar frei Anselmo Julio München fala sobre sua vida e seu trabalho

11/04/2013
Frei Anselmo München: 60 anos de amor e dedicação (Foto: Arquivo pessoal)

Frei Anselmo München: 60 anos de amor e dedicação (Foto: Arquivo pessoal)

Frei franciscano, Anselmo Julio München (OFM) comemorou seus 60 anos de vida sacerdotal (jubileu de diamante) na Páscoa deste ano, em 31 de março. Um grupo de familiares do Vale do Caí foi prestigiá-lo na cidade onde reside, Ituporanga, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Uma missa festiva, seguida de almoço, marcou o 60º aniversário de sua ordenação sacerdotal.

 

Nascido em Feliz, Anselmo, ainda criança, mudou-se com a família para Santa Catarina. Foi lá, em meio a uma situação de dificuldade e tristeza, que seu desejo de ser padre começou a se concretizar. Iniciou sua formação religiosa no Paraná, em 1939, sendo ordenado sacerdote em 1953. Além de seus trabalhos no Brasil, atuou um período no Chile. É autor do livro “Origem e Descendência da Família München” e um dos incentivadores do reencontro dos familiares, por meio da Münchenfest, em sua 8ª edição, realizada no dia 29 de abril de 2012, em Quatro Pontes, no Paraná.

 

Nesta entrevista ao Portal Vale do Caí, frei Anselmo conta sobre sua vida e sua trajetória religiosa. Nascido no Vale do Caí, onde tem muitos familiares e amigos, mantém fortes ligações com a região até hoje.

 

 

Portal Vale do Caí: Conte um pouco sobre suas origens no Vale do Caí.

 

Frei Anselmo Julio München: Sou filho de João München Filho e Ana Olga Kraemer, moradores de Feliz, Capela de Cristo Rei, no Bairro São Roque. Nasci em 1º de junho de 1924. Sou o filho mais velho de nove irmãos, seis homens e três mulheres. Meus pais eram agricultores. Nossa saúde foi controlada pelo avô paterno, Johann, que era o médico da família e também das famílias do povoado.

 

A Vila São Roque, com igreja e escola, ficava a quatro quilômetros, no final de uma longa descida, com estrada para carroça, formada de pedras soltas, passando ainda por um trecho de mata virgem. O pai comentava: “O Anselmo vai primeiro aprender a andar a cavalo, para então pensar em ir para a escola, porque nenhuma criança pode fazer quatro quilômetros a pé, de manhã, no escuro, no frio e na geada do inverno, e, ao meio-dia, voltar para casa, fazendo o mesmo caminho, morro acima, sem almoço. Isso só pode ser feito a cavalo”.

 

O fato é que me lembro que, aos sete anos, andava a cavalo, indo para a escola e realizando as tarefas de compras para os pais. Aos domingos, todos participávamos da missa ou do culto. Os pais cavalgavam os dois cavalos da família, levando os irmãos menores na garupa, e eu andava a pé, com outros companheiros.

 

 

Portal Vale do Caí: E como foi a escola primária do seu tempo?

 

Frei Anselmo: Nosso professor foi o senhor Bohn, que ministrava suas aulas numa sala bem grande, onde cabiam todos os alunos da escola. Os alunos da primeira série, uns 15, ocupavam os bancos compridos da frente. Os alunos da segunda série estavam nos bancos compridos, logo atrás dos primeiros. E assim estavam também localizados os alunos da terceira e quarta séries.

 

O professor era só o senhor Bohn. Durante os primeiros 15 minutos, dava aula para as crianças da primeira série, enquanto os das outras séries estavam ocupados com suas tarefas. Terminada a tarefa com a primeira série, o professor dava sua aula para a segunda e demais séries, uma após a outra. Após uma pausa para todos, seguiam as aulas até o meio-dia.

 

O professor falava mais em alemão do que em português, porque só falávamos alemão. Da minha parte, já aprendera a ler, escrever, fazer contas, com tabuada decorada, em casa, com o pai e a mãe. Quando cheguei à escola, o professor então me localizou na devida posição do aprendizado. Também aprendêramos a ler e estudar a Bíblia e o catecismo, pois éramos todos católicos. Uma vez por mês, vinha um padre, o pároco de Feliz, um padre jesuíta, que celebrava a missa e nos fazia as perguntas do catecismo.

 

 

Portal Vale do Caí: Como surgiu a vocação para padre?

 

Frei Anselmo: Aos domingos, após a missa do padre jesuíta, meu avó paterno, Johann, reunia os netos em redor dele, enquanto a avó e nossas mães preparavam o almoço para todos. Um dia, o avô estava mais contente do que nunca, e queríamos saber o porquê dessa euforia. E ele então nos contou que estava muito feliz, porque acabara de atender uma família, onde a mãe estivera doente, durante semanas, e ele encontrara os filhos chorando em redor da cama dela. E continuava o avô, contando: "Quando cheguei à casa deles, consegui reunir os filhos e alguns vizinhos, aos pés dos quadros de Jesus, Maria e José que pendiam da parede. Pedi que rezassem pela mãe enferma e que isto era verdade: ‘Quem reza, tem tudo de bom!’”. Era o lema da vida do avô.

 

Uma semana depois, ao fazer outra visita à enferma, as crianças já vieram correndo ao encontro do avô, gritando: "Obrigado, doutor, a mãe melhorou e está fazendo comida para nós!". E o avô nos disse: "Queridos, essa é a causa da minha alegria: conseguir devolver a saúde aos doentes, com a oração e algum remédio! Só fico triste quando o doente está muito mal e tenho que procurar um padre, para prepará-lo para ir pro céu! E não se acha facilmente o padre, porque é um só nesta nossa terra!".

 

E eu fiquei pensando: “Que coisa! O avô tudo sabe e vive tão feliz e alegre, e por que será que ele não sabe preparar um doente para ir pro céu? Eu vou querer fazer o que ele faz, mas também vou querer aprender a preparar os doentes para ir pro céu. Mas já me disseram que é o padre que faz isso”. Eu tinha dez anos. Perguntei ao padre jesuíta se era difícil ser padre. E ele respondeu: “Não, não é nada difícil. É só estudar e rezar. O seminário jesuíta está aí perto!”. Lembrei-me então do lema do avô: "Quem reza, tem tudo de bom!". Isso o avô já me provara como se faz. Então, era só conseguir entrar no seminário.

 

Nessa altura, meu pais executaram o plano de melhorar as condições de trabalho na propriedade. Venderam suas terras, puseram o dinheiro no bolso, porque não havia banco, e emigramos para Luzerna, em Santa Catarina. Estávamos duas semanas lá, quando entrou um ladrão dentro da nossa casa, achou o dinheiro e meteu fogo na nossa casa. Os pais tinham um compromisso no vizinho.

 

Éramos seis filhos, quatro nos salvamos, pulando as janelas da casa, mas os dois menores queimaram vivos. Mais de cem pessoas se reuniram em redor da nossa casa em chamas. Estava também ali um padre franciscano, que eu não conhecia. Ele logo falou ao povo ali reunido, pedindo roupas e utensílios para nossa família poder seguir vivendo. Resultou que o povo nos levou para suas casas e, em pouco tempo, construíram outra casa para nós.

 

E a mim, o padre me levou para sua casa, dizendo que cada dia fosse para a aula e ajudasse na casa paroquial. O jeito querido deste franciscano para com nossa família e sua maneira alegre de trabalhar com o povo me encantou. Sabendo ele que eu queria ir para o seminário, conseguiu que um grupo de senhoras me preparasse uma mala de roupas, e lá fui eu para o Seminário Seráfico de Rio Negro, no Paraná.

 

O que sempre me encantou foi a lei da natureza. A sementinha, tratada corretamente, semeada em condições corretas, brota, se cobre de folhas, flores e frutos, que encantam o ambiente. A lei da vida espiritual e os sacramentos da Igreja Católica seguem o mesmo caminho. O batismo, um presente de Deus, transforma a alma em filho, filha de Deus. Na primeira comunhão, o próprio Deus se transforma em alimento e passa a viver na alma da pessoa. A crisma amadurece a alma, como moradia da Santíssima Trindade. No casamento religioso, Deus une os corações dos noivos num só coração e Ele passa a viver na família. E na ordenação de um padre, Jesus não deixa nenhuma dúvida e transmite poderes divinos, quando diz: "Ide a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo!". E ainda: "Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, fazei isto em minha memória!". É evidente que Jesus quer preparar alguém para entregar esses valores divinos em seu lugar, porque Ele quer voltar para o céu! Sinto vontade de me oferecer para fazer esse trabalho em favor do povo, que procura esses valores divinos.

 

 

Portal Vale do Caí: Onde e como foi sua formação para sacerdote?

 

Frei Anselmo: Comecei um período de quinze anos de estudos, no Seminário Seráfico de Rio Negro/PR, em 1939. Houve problemas, saudades, incertezas e dores, mas o lema do avô: "Quem reza, tem tudo de bom!" ensinou como vencer. Grandes foram as saudades dos pais e irmãos, dos tios e primos, deixados em São Roque, Feliz. Visitei os pais e os irmãos por duas vezes, durante uma semana, em quinze anos de estudos. Voltei a ver os tios e primos dezoito anos depois da nossa emigração. Rezava sempre de novo, pedindo a força para alcançar a vocação de ser religioso e padre franciscano. Mas só tive alguma certeza de ter vocação, treze anos depois, quando fui chamado ao altar, a fim de receber a ordenação de diácono, e pude responder: “Aqui estou!”. Fui ordenado sacerdote em 1953.

 

 

Portal Vale do Caí: Que atividades desempenhou depois de ordenado?

 

Frei Anselmo: Durante os primeiros doze anos de sacerdote, fui professor de línguas, nos seminários de Luzerna/SC, no seminário Seráfico de Rio Negro/PR e no seminário de Agudos/SP.

 

Em 1965, nossa província franciscana abriu um campo missionário no sul do Chile. Num documento de chamada de voluntários, apresentaram-se 39 confrades. Dentre eles, fomos escolhidos cinco sacerdotes. Sem algum curso de espanhol, lá fomos nós. Dois assumiram a direção do seminário de Osorno e os outros três confrades começaram um trabalho missionário com o povo na Paróquia Franciscana de Temuco. Com muito susto e grande preocupação, descobrimos que o seminário de Osorno não funcionava com estrutura de seminário, mas era simplesmente uma pensão de jovens. Os alunos estudavam em colégio estadual dos arredores e viviam na pensão. Nenhum deles era jovem vocacionado, buscando algo religioso. Fizemos todos os esforços, desenvolvendo com tino alguma estrutura de seminário no ambiente, para orientarmos alguma vocação religiosa. Com a mesma preocupação, trabalhamos no ambiente paroquial dos arredores, mas não nos foi possível acolher algum pedido de vocacionado.

 

No fim do ano de 1965, fechamos o seminário-pensão. E isso foi um choque espiritual no ambiente. Pessoalmente, ouvi o comentário: “Um missionário vem trabalhar pelas vocações em nossa terra e fecha o nosso seminário!”. Também sofri, mas me pus de joelhos, pedindo ao Senhor: “Ilumina-nos, Senhor, a fim de descobrir um outro jeito de cultivar vocacionados!”. Fui transferido para a nossa Paróquia de Temuco, onde trabalhavam os outros confrades. Veio-me a ideia de fundar uma tropa escoteira, mas ninguém tinha certeza do que deveria ser feito, para garantir a pureza do trabalho escoteiro. Ofereceram-me um curso na Alemanha. E lá fui buscar os valores escoteiros num acampamento-escola, com chefes ingleses. E o resultado apareceu logo entre nosso jovens paroquianos. A característica juvenil do método escoteiro, a suavidade e a exigência no adestramento, o encanto da mensagem de São Francisco e a natureza e a euforia da preparação dos acampamentos anuais fizeram com que os jovens crescessem equilibrados e felizes. Éramos quatro os confrades franciscanos, assumindo os trabalhos de evangelização da paróquia, mas cada qual apoiando o ramo de trabalho do confrade. E o povo gostava de sentir uma fraternidade unida, trabalhando todos pela comunidade paroquial.

 

Os paroquianos, os pais dos escoteiros, lobinhos e caminhantes apoiavam os nossos trabalhos com os seus filhos. Dez anos depois, em 1975, nós, confrades, todos nos surpreendemos, quando foi anunciado o convite a todo o povo da região, dizendo que estava sendo preparada a maior festa na Paróquia de Temuco, porque um dos jovens escoteiros seria ordenado sacerdote franciscano na igreja local, onde nunca se imaginara nem vira algo assim! Anos depois, seguiram-se outras ordenações sacerdotais de jovens escoteiros, que fizeram seus estudos superiores no Brasil. E, agora último, há poucos dias, 45 anos depois, me chegou a notícia de que dois jovens dessa mesma tropa escoteira foram ordenados diáconos permanentes naquela comunidade paroquial. Pelo Facebook pude conferir, há poucos dias, as paisagens do ambiente missionário de tantos anos atrás. Entrei também pela nossa Igreja São Francisco de Temuco e, com a maior surpresa, constatei a presença e as atividades de uma alcateia de lobos, a Manada Hatusime, que fundara há 45 anos, nessa mesma igreja. E grande alegria tomou conta do meu coração, ao saber que o Grupo Escoteiro São Francisco, fundado por mim, há 47 anos, na mesma igreja, está funcionando com valentia juvenil.

 

No Brasil, trabalhei como pároco, em três paróquias: em Vila Velha, Espírito Santo, durante três anos; dirigi, durante seis anos, a Paróquia do Senhor Bom Jesus, em Curitiba, Paraná; durante quinze anos, fui pároco na Paróquia Santa Inês, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, onde, além de paróco, presidi a construção de todas as instalações materiais que lá existem. Quando completei 80 anos, os superiores me confiaram o trabalho de capelão hospitalar. Lembrei-me muitas vezes do meu avô, que despertou meu coração para a vocação sacerdotal. Com alegria especial, preparei muitos enfermos para o encontro definitivo com o Pai do Céu, durante três anos, como capelão no Hospital-Escola da nossa Universidade São Francisco, de Bragança Paulista, São Paulo. Agora, há quatro anos, estou vivendo no Seminário São Francisco de Assis, em Ituporanga, Santa Catarina. Atuo como religioso e como professor voluntário de aulas de línguas, que dou para grupos de jovens interessados em aprender algo de línguas estrangeiras.

Fotos: Arquivo pessoal

 

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